terça-feira, 15 de outubro de 2019

ENCONTROS DOS BARDINHOS
Culturas e dissídios

Décimo encontro: 26 e 27 de Outubro de 2019
organização de Joëlle Ghazarian
Local: Quinta dos Bardinhos, entre Portalegre e Castelo de Vide
Contactos: 245 203 555 ou 967 971 609

Como chegar
Vindo de Portalegre, seguir em direcção de Castelo de Vide. Atravessar a aldeia de Vargem, continuar mais uns 2 km, ao longo de uma recta, até ao Café Fonte do Sapo, situado à direita (toldo branco exterior). Logo a seguir, cortar à esquerda, seguindo a direcção de Fortios. Um quilómetro e meio depois, é a primeira casa à direita, ao fundo do terreno. A meio, dorme uma caravana velha, branca, à sombra de um frondoso carvalho. Abrir o portão verde enferrujado, com duas discretas iniciais cabalísticas, AD, que significam, traduzidas, «amanhã dormimos».
Vindo do lado de Castelo de Vide, tomar a direcção de Portalegre. Uns 10 km após o cruzamento que indica o rumo de Portalegre, cortar à direita, no primeiro aglomerado de casas, junto a um painel de correio, seguindo o rumo de Fortios. Um quilómetro e meio depois, é a a primeira casa à direita, ao fundo do terreno. Idem.   



Sábado 26
15 h-16h30 | Anne Leclerc – Quatro curtas-metragens: Dissonance, L’inconnu, Désanimée, La survivante 
16h30 – 18h30 | Sílvia das Fadas – Longa-metragem Luz, Clarão, Fulgor 

18h30-18h30 | Recital de guitarra por Arthur Dente

20h00 — Jantar

21h30  | El Gran Boscoso: uma cerimónia de despossessão 
Por Eugenio Castro, do Grupo Surrealista de Madrid

Domingo 27
11h00-13h00 | Resistente como o Feltro - as estruturas têxteis 
e as estruturas sociais, intervenção e oficina 
Por Diana Regal

13h00 — Almoço

14h30 | Capacidades naturais do corpo da mulher no parto 
Por Luísa Veloso
16h30 | Recital para concluir em beleza, por Arthur Dente

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Anne Leclercq nasceu fisicamente em Bruxelas, mas espiritualmente em Sintra, onde passava todos os verões com os irmãos e as primas na casa da avó na Assafora. Licenciou-se em realização cinematográfica em Louvain-la-Neuve. Fartou-se de trabalhar para a televisão e foi trabalhar para o teatro em Liège, Bruxelas e Lausanne como videasta, guionista, cenógrafa e actriz. De origem luso-belga, deixou Bruxelas há seis anos para viver em Portugal, embora continue a lá ir para exercer a actividade de educadora de cinema de animação com crianças e jovens. Realizou, entre outras, as quatro curtas-metragens que nos apresenta: Dissonance, L’inconnu, Désanimée e La survivante, e está actualmente a desenvolver uma produtora de «eco-cinema» com sintrenses que colaborarão também no seu próximo filme, a ser rodado em Sintra.



 Sílvia das Fadas é cineasta, investigadora, professora. Caminhou em vários países, até ter sido chamada a Troviscais, aldeia alentejana nas margens do rio Mira. Interessa-se pelas políticas intrínsecas às práticas cinematográficas e pelo cinema enquanto experiência colectiva e expandida. Luz, Clarão, Fulgor: Augúrios para um Enquadramento Não Hierárquico e Venturoso – Filme 16mm e texto de Sílvia das Fadas – Composição Sonora de João Farelo – Paisagens sonoras de Nora Sweeney, Robert Blatt, Sílvia das Fadas – Duração: 60 min. Procuramos por augúrios enquanto observamos teimosamente as ruínas de uma comuna. Por exemplo: «clima favorável aos errantes». Caminhamos através dos tempos, registando erraticamente imagens e sons através da espacialidade caleidoscópica do Alentejo, uma região com nome de rio, para além de um rio. Como caminhar oferece encontros inesperados e copresenças, missivas são enviadas de e para as margens. Por exemplo: “cultivar órgãos para a alternativa”. Os nossos sentidos são parciais, precários e fragmentários, mas não a nossa orientação: trava-se uma luta quotidiana pelo fulgor e queremos fazer parte dela. Contra um firmamento de desapropriação de terras, corpos e laços sociais, estamos a preparar-nos. Por exemplo: «De nível!» O fulgor é móvel, a comunidade prefigurada é dispersa e diversa. Através de dissenso e associações de afinidade, autonomia e reencantamento, a oferenda do cinema traz em si a potência para florescermos livres de imposições hierárquicas. 



 Arthur Dente, guitarrista e compositor francês de pais portugueses. Desenvolve nas suas composições uma interacção entre a Península Ibérica, a Europa e, por extensão, as culturas do mundo. As suas composições são construídas numa busca poética, mas sustentadas por uma referência às raízes indígenas do homem. O tema «o índio», cruzando sua obra, poetiza a natureza tribal do homem moderno na encruzilhada de diferentes civilizações e múltiplas estéticas. 
(Ver texto complementar mais abaixo).







 Eugenio Castro, poeta, múltiplo escritor, tradutor, editor da revista Salamandra, fundada em 1987, e da editorial La Torre Magnética, com sede em Madrid. Colabora nas publicações de alguns dos grupos surrealistas espalhados pelo mundo e intervém desde há muito em diversos espaços de crítica da cultura. El Gran Boscoso aspira a ser uma emancipação do sentido. É esta a questão principal. Trata-se, por conseguinte, de induzir contágio, não mediante a compreensão, mas da apreensão. É preponderante criar intensidades, de preferência a criar sentido. Que a linguagem origine, não interprete. Que a língua saia do sério, não represente. O Grande Boscoso… é isso. 
(Ver texto complementar mais abaixo).





 Diana Regal – É o meu nome. Dizem as línguas, sem ser as da sogra, que descendo de um tal Regal general das tropas napoleónicas, o que me leva a pensar que a minha tetravó saiu ilesa do massacre da Arrifana. Agora, sou Diana de Viana, do Alentejo, note-se. E, assim, de deusa da Caça passei a deusa do cação. Já me chamaram Dinamite, em pequenota, talvez por me inflamar com facilidade. Mas não esqueço os meus nomes do meio – Zulmira Santos – o primeiro e o último nomes de minha avó. E assim me chamarão quando for crescida e passar as tardes à soleira da porta a fazer bonecas de meia, em forma de Vénus de Willendorf Feltro - Técnica de produção têxtil que segue as práticas ancestrais de produção de tecido sem fio. Distingue-se das formas mais actuais de fazer feltro, sobretudo pela utilização mais imediata da lã, sem a sua transformação. 
(Ver texto complementar mais abaixo).




 LUÍSA VELOSO«Para mudar o mundo é preciso mudar primeiro a forma de nascer.»  (Michel Odent) Mãe de uma menina de três anos e de um menino no ventre. Defensora do parto em casa, de saúde natural e de ensino doméstico. Gostaria de compartilhar a minha visão com os presentes sobre as capacidades naturais do corpo da mulher no parto, e o que pode ser o parto para além da «medicalização» de um acto fundamental que é o nascimento.
(Ver texto complementar mais abaixo).












LEMBRANÇA DO NONO ENCONTRO

Por António Cândido Franco

Teve lugar nos arredores de Portalegre, no fim-de-semana 16 e 17 de Fevereiro de 2019, o nono encontro dos Bardinhos – Culturas e Dissídios. Com uma assistência estimada nas quatro dezenas de pessoas, e com uma presença ibérica marcante, de Barcelona e de Madrid, foi com certeza um dos momentos altos destes encontros que se vêm realizando desde Novembro de 2016, fruto da gentileza, da generosidade e da franca e leal hospitalidade de Joëlle Ghazarian e Júlio Henriques. 
No sábado tiveram lugar as intervenções de Corsino Vela (Barcelona) e do Grupo Surrealista de Madrid (Andrés Devesa e Eugenio Castro). Centrada na noção de implosão da sociedade capitalista actual e na ideia dum capitalismo terminal, a primeira apontou convincentemente os limites da representação política e da gestão económica reguladora do capitalismo que a esquerda em geral apresenta. Intervenção altamente estimulante, que deve ser complementada com os livros que este activista publicou e cujas ideias a revista Flauta de Luz tem divulgado, ela deixou em aberto a necessidade de repensar a resistência social como uma tarefa da vida quotidiana fora da dependência das instituições dominantes que são também as da representação política que os partidos monopolizam. 
Por sua vez o Grupo Surrealista de Madrid deu a conhecer a sua história, as suas acções e as noções que lhe são próprias e que foi desenvolvendo ao longo de mais de trinta anos de existência (exterioridade, materialismo poético, poesia por outros meios). Com uma actividade que remonta ao início da segunda metade da década de 80 do século XX, o grupo de Madrid é a prova de que o surrealismo tem uma persistência invulgar. Não se trata de abordar o surrealismo como um caso de estudo, que deu um contributo de grandes dimensões à poesia e à pintura da primeira metade do século XX, mas de o encarar como um agente vivo, em acção, capaz de contribuir no presente, hoje já, para a subversão da História e do Indivíduo.
No domingo ao fim da manhã Maria João Berhan apresentou a associação Habita, com sede em Lisboa, na Rua dos Anjos, que luta pelo direito à habitação e privilegia meios de acção directa. São inúmeras as suas acções na zona da grande Lisboa para evitar despejos, ocupar casas devolutas, dialogar com as comunidades mais segregadas (negros e ciganos), lutar contra a especulação dos preços das casas e dos terrenos da periferia urbana, pressionar os responsáveis pela habitação social apoiada – parte ínfima e muito aquém do necessário tendo em atenção a população pobre e sem possibilidade de pagar uma renda de mercado. Por fim, de tarde, estabeleceu-se uma conversa em torno do número triplo de 2018 da revista A Ideia com dois momentos fortes: Agostinho da Silva e o caso catalão. Evocou-se a dinâmica social e pedagógica do Agostinho seareiro da década de 30 e que teve continuidade na década seguinte com a publicação monumental dos cadernos culturais «Iniciação», que acabaram por levar à prisão do autor no Aljube em Junho de 1943 e ao seu exílio no Brasil em 1944, donde só regressou e com passaporte brasileiro 25 anos depois. Sobre a situação catalã anotou-se a ambivalência de posições dentro do movimento libertário, com aqueles que se mostram muito críticos com a declaração de independência da Catalunha e aqueles que com não menos entusiasmo a apoiam. Os primeiros fazem uma leitura de classe do acontecimento, vendo nele uma tentativa da burguesia catalã se neo-liberalizar sem os entraves do centralismo de Madrid, enquanto os segundos vêem o caso na tradição de Pi y Margall como um ponto forte da federalização dos povos ibéricos.
27-2-2019




ELEMENTOS complementARES
para o décimo encontro


diana regal 
em torno do feltro


Modelo tecnológico – Um tecido apresenta, em princípio, um certo número de características que permitem defini-lo como espaço estriado. Primeiro é constituído por duas espécies de elementos paralelos: mais simplesmente uns são verticais, outros são horizontais, e ambos se entrecruzam, se cruzam perpendicularmente. Em segundo lugar, as duas espécies de elementos não têm a mesma função; uns são fixos e os outros móveis, passando por cima e por baixo dos fixos. Leroi-Gourhan analisou esta figura dos «sólidos flexíveis». No caso da cestaria assim como da tecelagem: os montantes e as hastes, a cadeia e a trama. Em terceiro lugar, um tal espaço estriado é necessariamente delimitado, fechado de um lado pelo menos: o tecido pode ser infinito em comprimento, mas não na largura definida pelo quadro da cadeia (eu diria teia); a necessidade de uma ida e volta implica um espaço fechado (e as figuras circulares ou cilíndricas são elas próprias fechadas). Por fim, um tal espaço parece precisamente apresentar necessariamente um avesso e um direito; até quando os fios da cadeia e os da trama têm exatamente a mesma natureza, o mesmo número e a mesma densidade, a tecela-gem reconstitui um avesso ao relacionar de um único lado os fios ligados. Não foi em função de todas estas características que Platão pôde tomar o modelo da tece-lagem como paradigma da «ciência real», isto é, da arte de governar os homens ou de exercer o aparelho de Estado?
Mas, entre os produtos  sólidos flexíveis, há o feltro que procede diferentemente, como um anti-tecido. Não implica nenhum desprendimento de fios, nenhum entrecruzamento, mas apenas um encadeamento de fibras, obtido por pisoamento (por exemplo, ao rolar alternativamente o bloco de fibras para diante e para trás). São as micro-escamas das fibras que se encadeiam. Um tal conjunto de intrincação não é de modo nenhum homogéneo: é, no entanto, liso e opõe-se ponto por ponto ao espaço do tecido (é infinito no direito, aberto ou ilimitado em todas as direções; não tem avesso nem direito, nem centro; não atribui fixos nem móveis, mas distribui, de preferência, uma variação contínua).Ora, mesmo os tecnólogos que emitem grandes dúvidas sobre o poder da inovação dos nómadas, homenageiam-nos, pelo menos, pelo feltro: isolante esplêndido, invenção genial, matéria da tenda, do vestuário, da armadura dos Turco-Mongóis.
E, sem dúvida, os nómadas de África e do Magrebe tratam, de preferência, a lã como tecido. Mas, com o risco de deslocar a oposição, não se encontrará duas concepções e mesmo duas práticas muito diferentes da tecelagem que se distingam um pouco como o próprio tecido e o feltro? Porque, no sedentário, o tecido-vestuário e o tecido-tapeçaria tendem a anexar ora o corpo, ora o espaço exterior à casa imóvel: o tecido integra o corpo e o fora num espaço fechado. Enquanto o nómada ao tecer indexa o vestuário e a própria casa ao espaço de fora, ao espaço liso aberto onde o corpo se move. 

Gilles Deleuze e Félix Guattari (2008), 
Mil Planaltos – Capitalismo e Esquizofrenia 2 
(Assírio & Alvim, Lisboa).




ARTHUR DENTE,
Musicien du Monde Entero

 En 2004, il met en pratique ses recherches compositionnelles en créant l'ensemble Magellan,   composé d’un orchestre de chambre de 23 musiciens, d'un chœur et d'une section flamenca. En 2013, il compose pour l'académie d'Aix-Marseille un projet choral intitulé «Mundo Entero» présenté à la salle du Bois de L'Aune à Aix en Provence pour un chœur de 120 collégiens et un ensemble de 15 danseuses de flamenco issues de différents collèges d'Aix en Provence.
 En 2019, il crée un spectacle choral dans l’académie d’Aix-Marseille intitulé "Alto plano » réunissant un chœur de 120 enfants, un octuor vocal professionnel et un orchestre de 120 musiciens à l’Auditorium du conservatoire d’Aix en Provence. Ce spectacle évoque son idée récurrente de « l’Indien », cet être premier qui nous constitue et qui a essaimé la terre en développant des cultures et des points de vues esthétiques spécifiques. Mais toutes ces cultures aussi différentes soient-elles, peuvent en réalité converger vers l’universel. C’est cette volonté de construction vers l’universalité qui anime son projet musical.
Il poursuit également sa carrière de soliste en donnant des récitals dans sa ville de résidence, Aix en Provence mais aussi à Toulouse, Marseille ou Paris. Il donne également une série de concerts et conférences aux Etats-Unis à Santa Cruz, à San Francisco, Sacramento, Los Angeles où ses thèmes identitaires réunissent Fado portugais, fragrances sonores andalouses et harmonies classiques au carrefour des musiques populaires et savantes.



Eugenio Castro 


Eugenio Castro (Toledo-Las Herencias, 1959). Forma parte del Movimiento Surrealista desde 1979, participa de sus dinámicas y actividades y colabora en las publicaciones de algunos de los grupos surrealistas del planeta. Es fundador y coeditor de la revista Salamandra (Intervención surrealista. Imaginación insurgente. Crítica de la vida cotidiana) desde 1987. Además co-fundó Luz Negra. Comunicación surrealista (Gijón-Madrid, 1980-81) y las Ediciones de La Torre Magnética. Ha dirigido distintos espacios de crítica de la cultura, como el programa de radio «La Estación de Perpiñán», en Radio Círculo, o ubicarte.com. Ha impartido cursos y seminarios en espacios como cruce, Talleres Fuentetaja, Enclave de libros o el Círculo de Bellas Artes de Madrid.
Colabora en las publicaciones de algunos de los grupos surrealistas de distintas partes del mundo: S.U.R.R. (París), Analogon (Praga), Stora Saltet (Estocolmo), Farfoulas (Atenas), Brumes Blondes (Ámsterdam), Boletín Surrea-lista Internacional (Estocolmo, París); o en el proyecto del Grupo Surrealista de Leeds, Surrealists go to the cinema.
Entre sus publicaciones se cuentan el poemario Mal de Confín y El Gran Boscoso, el ensayo H (Pepitas de calabaza, 2006), el pequeño libro de imágenes, manipuladas con goma de borrar, titulado Gommages (2000), además de los «colages» Reaparición de la Isla Misteriosa (1995) y las «plaquettes» La ciudad constelada (1995) y La región insomne (1996). Ha participado en la coordinación de libros colectivos como Indicios de Salamandra, que aborda las problematicas políticas y poéticas del lenguaje, Situación de la poesía (por otros medios) a la luz del surrealismo, The Exteriority Crisis. From the city limits and beyond, o Los días en rojo. Textos y declaraciones del Grupo Surrealista de Madrid (Pepitas de calabaza, 2005). Asimismo, es editor del libro Humores de Eros (2004). Además ha traducido a Ghérasim Luca, Joyce Mansour o Guillaume Apollinaire, entre otros.



Luísa Veloso — o parto em casa


Aos meus 39 anos, nasceu a minha primeira filha, Miranda. A minha escolha pelo parto em casa foi motivada por relatos traumatizantes de amigas e familiares que tinham tido o parto na maternidade. Eu não concebia a ideia de me sujeitar a protagonizar uma história semelhante.
A primeira vez que ouvi falar na Mary, a parteira que escolhi, foi através da minha amiga Ana. Quando contactei a Mary pela primeira vez, por telefone, ela perguntou-me o que é que eu esperava dela e porque é que eu queria ter um parto em casa. Eu respondi que procurava confiança. O nascimento é o momento mais importante da vida do bebé e, posso dizer, da mãe depois do seu próprio nascimento. A Mary contou-me que pergunta sempre às suas parturientes como desejam que seja o seu parto, que imagem têm em mente, e ela concretiza esse desejo como se fosse uma fada. Dar à luz como desejamos, onde e com quem queremos, é para mim um direito fundamental.
Como a minha gravidez foi acompanhada pela médica de família desde o início e estive sempre livre de riscos, a questão colocou-se: porquê dar à luz numa maternidade quando posso ter o bebé no aconchego do lar?
Eu nunca receei o parto em casa, mas sim o parto no hospital. Ter de lidar com a pressão dos médicos para permanecer na posição deitada (que não é natural já experimentaram defecar deitados?), estar sujeita a uma indução de parto, a uma epidural ou a uma episiotomia, sentir-me numa linha de montagem, ter de ser transferida do quarto para a sala de par-tos no momento em que o bebé está a coroar, eram situações a que eu não que-ria estar sujeita. Para mim era essencial ter o total protagonismo deste momento. Eu queria poder comer, dormir, escolher 
a posição e esperar pela total dilatação. Gostaria que o meu ritmo e a minha intimidade fossem integralmente respeitados; gostaria de ser tratada como um ser humano antes de ser tratada como uma paciente; não queria que fosse um momento esvaziado de sentido; não queria que o meu bebé fosse manipulado como um objecto, mas como um ser profundamente sensível e sujeito às influências do meio; gostaria de viver plenamente o momento, de participar activamente em tudo o que acontecesse, de estar em plena consciência das minhas emoções, do meu sentido de responsabilidade, da minha capacidade de tomar decisões neste acontecimento tão importante para o bebé, para mim e para o meu companheiro.
Um parto feliz é o melhor investimento que podemos fazer para dar o melhor começo de vida ao nosso bebé. 
Uma amiga emprestou-me o livro A Guide to Childbirth, da conceituada parteira norte-americana Ina May Gaskin, autora de outra obra essencial do parto humanizado, Spiritual Midwifery. Uma boa parte deste livro consiste em testemunhos de partos assistidos por esta parteira ou pelas suas colegas do The Farm Midwifery Center, um espaço pioneiro na assistência humanizada de partos em casa. Este livro foi o meu principal aliado.
A minha gravidez foi acompanhada pela médica de família, no Centro de Saúde, pela maternidade Bissaya Barreto e pela Mary. Nas consultas da maternidade, as enfermeiras ou enfermeiros e as médicas ou médicos, que foram sempre diferentes, faziam basicamente o mesmo que a Mary ou a médica de família, excepto a ecografia. Mediam a tensão, pesavam-me e davam-me conselhos básicos a conta-gotas. Era muito desgastante, esperávamos sempre cerca de cinco horas pela consulta após a ecografia. Este acompanhamento teve episódios caricatos. Na primeira ecografia, na maternidade Bissaya Barreto, o médico teve um comportamento hostil porque eu tinha a bexiga vazia e ele não conseguia ver a bebé. Eu respondi que ninguém me tinha informado que eu devia ter a bexiga cheia, sugeri beber água e voltar. E o médico respondeu, sempre num tom agressivo, que não podia esperar porque estávamos muito perto da sua hora de saída para o almoço. 
Às 36 semanas informei a médica do centro de saúde que iria ter o parto em casa. Ela reagiu aparentemente bem. Mas, duas semanas depois, alarmou-me dizendo que a minha barriga estava muito pequena, pediu-me para eu ir às urgências o mais depressa possível e fez uma carta selada para eu entregar nas urgências na maternidade. Fui lá três dias depois, porque tínhamos o carro no mecânico e achei que não havia razão para alarmismos. Sentia-me bem e sabia que a bebé estava bem. 
Pelo caminho, espreitei o conteúdo da carta: a médica informava que eu tinha recusado a vacina anti-D e que ia ter o parto em casa. Durante o percurso, tentei prever o que me iriam dizer e preparei as respostas. Nas urgências, a médica perguntou-me por que motivo ali estava. Respondi que a médica queria confirmar se estava tudo bem, porque achava que a minha barriga era pequena e eu ia ter o parto em casa. Depois de lerem a carta, as médicas tentaram assustar-me com os perigos de não tomar anti-D e dos partos em casa. Disseram que a bebé podia morrer e que tinham levado muitos bebés para transfusão de sangue. Questionei-as sobre as estatísticas, mas fingiram que não me ouviram. Fizeram análises à urina e ao sangue, e mediram os batimentos cardíacos da bebé por duas vezes. Não estavam satisfeitas com os resultados. Pareceu-me que queriam forçosamente encontrar algo de errado para me tentarem convencer a não ter a bebé em casa, mas, na verdade, estava tudo bem. A médica também me contou que lera recentemente num jornal um artigo sobre um parto em casa em que o bebé tinha morrido. Eu respondi sempre positivamente, e, com um sorriso, disse-lhe que tinha o direito de optar, que assumia toda a responsabilidade, que estava bem informada e que tinha fé em que tudo iria correr bem. Mandou-me deitar na maca e despir-me da cintura para baixo, ao que eu respondi que não queria ser observada. Um toque vaginal mais profundo poderia desencadear contracções ou provocar a ruptura das águas. Ela não ficou muito satisfeita, mas aceitou e analisou o líquido amniótico com uma sonda. Por fim, concluiu: «Parece que não a consegui convencer, mas não hesite em vir para a maternidade se algo correr mal.» Eu respondi, sorridente, que agradecia a preocupação e que não hesitaria em dirigir-me à maternidade caso viessem a surgir complicações. 
No dia 22 de Julho decidi ir para casa da Ana, pois estava mais próxima da casa da Mary e apenas a 30 km da maternidade, para o caso de surgir algum imprevisto. Para esta decisão também contou o facto de estarmos contactáveis.
Na segunda-feira à tarde, dia 25 de Julho, a Ana e a sua família partiram rumo ao Sul e eu e o Carlos ficámos encarregados de cuidar da casa e da horta, sozinhos na nossa prezada intimidade, como imaginámos. Na madrugada de segunda para terça-feira, senti uma dor que eu pensei tratar-se de uma contracção, porque se assemelhava às dores menstruais. Decidi, às 3 da manhã, preparar o que faltava para o nascimento, não fosse a minha bebé pregar-me uma partida e vir antes da data esperada. Apesar de os médicos apontarem o nascimento para o dia 24 de Julho, a Mary previu-o para uma semana depois. Ao contar as dez luas, também eu esperava a minha Miranda para essa data. Na madrugada de terça-feira, senti novamente estas dores, muito espaçadas. Desta vez achei que estaria mais próximo o momento. Durante a manhã fiz ioga, saltei no trampolim, brinquei no trapézio e limpei a casa. À tarde antecipámos a ida às compras, porque tínhamos convidado uns amigos para virem almoçar no dia seguinte. Ia sentindo contracções espaçadas. Eram dolorosas, mas suportáveis. Quando cheguei a casa, pelas 19h30, as contracções eram mais intensas e próximas.
Percebi que a hora se aproximava. Não estava com paciência para cozinhar, mas ainda fiz a massa para a pizza, para o dia seguinte. Não tinha fome. Havia momentos em que tinha frio e outros em que tinha calor. Estava enjoada. Tentámos encher a piscina com uma bomba a pedal, mas não funcionou. «A piscina não vai fazer falta» pensei eu. O Carlos sugeriu que eu ligasse à Mary para ela ficar de sobreaviso. Ele estava mais preocupado do que eu. Cronometrou as contracções e achou que estavam a acelerar, mas eu achava que ainda estavam distantes. Depois de muita insistência do Carlos, pelas 21h30 decidi ligar à Mary, que me aconselhou a dormir entre as contracções, que não me preocupasse com a piscina e enchesse a banheira, e que lhe ligasse novamente quando as contracções estivessem mais próximas.
Dormir não era a minha vontade. Preferia caminhar no pátio, quando tinha calor, e na sala quando tinha frio. Sentia calafrios. Quando as contracções ficaram mais próximas, às 00h30, liguei novamente à Mary e fui para a sanita. Afinal estava sempre a urinar e pareceu ser o sítio mais confortável para aguentar as contracções. Constatei que a ergonomia da sanita era adequada.
Quando a Mary chegou, encheu a banheira com água quente e foi deitar-se no sofá, aguardando pacientemente a minha dilatação. A sua descontracção permitiu-me confiar na minha intuição para lidar com o meu trabalho de parto. A sua presença, por si só, deu-me confiança. Deitei-me na banheira, mas por pouco tempo, pois senti que o calor me baixava a tensão. Disse ao Carlos para se ir deitar também, para estar em forma quando chegasse o momento, mas ele quis ficar ao pé de mim. Sentou-se ao meu lado, amparando-me com abraços reconfortantes que me levaram a adormecer entre as contracções. Ele estava calmo, paciente e solidário, mas frustrado, pois não podia fazer mais do que me amparar. Quando às 3 da manhã senti uma contracção intensa e uma espécie de tampão viscoso saiu, o Carlos foi chamar a Mary. Pensámos que eram as águas, mas era só o rolhão. A Mary contou-nos que não conseguiu adormecer logo, por causa do coaxar das rãs do lago ali à porta de casa. Rimo-nos. Disse à Mary que podia voltar para o sofá e tentar dormir mais um pouco, porque talvez fosse demorar mais umas horas. Ela sorriu e disse que talvez não. Sugeriu que eu voltasse para a banheira, para relaxar. Voltei, mas as contracções eram agora mais intensas e próximas. Quando comecei a empurrar, o próprio corpo ditou essa necessidade, não foi um esforço consciente. Deixei-me levar. Soube bem.
Ora tinha frio, ora tinha calor. Pedi ao Carlos para abrir e fechar a janela consoante as minhas oscilações de temperatura. A Mary sugeriu que me colocasse de cócoras. Massajou-me um pouco os rins. Pensei em verificar se já sentia a cabeça da bebé. A Mary perguntou-me o que eu achava. Respondi que não sentia ainda a cabeça. Ela sorriu, dizendo que achava que ela já estava a coroar.
A Mary nunca teve necessidade de verificar a minha dilatação com qualquer toque vaginal. Eu quis sair da banheira, porque não me sentia confortável. Precisava de mais espaço e a posição deitada ou de cócoras não me favorecia. A Mary acompanhou-me até à sala onde tínhamos o colchão e perguntou-me se eu queria ter ali a Miranda. Respondi que não. Voltei à casa de banho. Virei-me para o Carlos e abracei-o. A Mary disse-me para usá-lo como apoio, e assim foi, estava encontrada a minha posição, de pé, para que a gravidade ajudasse. Senti que a expulsão estava próxima. Em pé, sim, senti que a cabeça da minha filha estava a sair. Pus um pé em cima do banco, senti maior conforto. A Mary pôs tudo a postos para a minha posição eleita: toalhas no chão e as mãos à espera da bebé. Naquele momento não podia haver hesitação. A Mary alertou-me para fazer a força apenas quando sentisse a contração. Tudo era muito intenso. Senti que fazia tanta força que os meus olhos já deviam estar fora das órbitas. Entretanto apareceu à janela entreaberta a Alegria, a gata da Ana. « Olha, a Alegria veio ver o que se passava!», exclamei. E rimo-nos todos.
Esse momento ajudou-me a relaxar. Minutos depois dei um valente empurrão, as águas rebentaram e a cabeça da minha bebé saiu, e logo a seguir os ombros e o resto do seu corpinho. A Mary amparou-a e deu-ma logo para os meus braços. Fiquei surpreendida por ser tão rápido e mais fácil do que eu tinha imaginado. O Carlos chorou de alegria, abraçou-me e beijou-me. A nossa filha chorava. Eu só a olhava, admirada, enamorada, enfeitiçada. A dor foi esquecida por uns momentos. O relógio mostrava 3h30. Felizmente o nascimento ocorreu à noite, como eu imaginava. A noite é mais fresca. Não queria tê-la com temperaturas a rondar os 40 graus.
O Carlos e a Mary ajudaram-me a lavar-me, enquanto eu segurava a Miranda, que estava agarrada a mim pelo cordão umbilical. Depois sentei-me na sanita à espera da próxima contracção, para expelir a placenta. Registámos este momento com uma fotografia. Quando senti a contracção, a Mary puxou a placenta pelo cordão e analisou-a com olhos de parteira, dizendo que estava em muito bom estado. Colocou-a num saco de plástico e eu fui para a sala com a placenta no saco, deitar-me no colchão, a adorar a minha bebé. Tentei dar-lhe de mamar, mas a Miranda estava cansada e só queria dormir. Para a Mary isso não era preocupante, porque os bebés têm reservas para três dias após o seu nascimento. O mais importante é estar descontraída e pensar que tudo corre bem. Fomos insistindo, oferecendo a mama, e a Miranda lá começou a mamar, doze horas depois de ter nascido.
Uma hora depois, era hora de cortar o cordão umbilical. A Mary perguntou quem queria cortá-lo e eu voluntariei-me. Seguidamente a Mary fez todos os testes à recém-nascida e eu fui então tomar um banho quente, que me deixou realmente restabelecida. Findo os exames, às 5h30, a Mary disse que voltaria mais tarde para ver se estava tudo bem. Adormecemos os três, aconchegados, até às 10h. À hora de almoço recebemos os nossos amigos, que nos deram conselhos úteis e muito apoio.
No dia seguinte, a Mary veio dar-me a injecção Anti-D, que tentei evitar, mas não consegui. A necessidade de tomar esta injecção deve-se ao facto de eu e o Carlos termos incompatibilidade de Rh. Eu sou Rh- e ele Rh+. No caso do sangue do bebé ser diferente do meu, o meu sangue cria anti-corpos que o consideram um corpo estranho. No teste de sangue Combs é possível determinar se o sangue está ou não a criar anti-corpos. Nos meus testes de sangue deu sempre negativo. Para o primeiro bebé os riscos são mínimos, mas aumentam a cada gravidez sucessiva. A toma da Anti-D às 28 semanas é controversa, mesmo na medicina convencional. Não há estudos a longo prazo desta vacina sobre a mãe e o bebé, existem novas estirpes de vírus desconhecidos que não são analisados no sangue que é introduzido, e a percentagem de bebés que nascem com icterícia ou doença hemolítica grave, ou que morrem, é de 1 a 2 %. Eu recusei tomá-la nessa altura e predispus-me a tomá-la nas 72 horas seguintes ao parto se o tipo de sangue da Miranda fosse Rh+. Mas os laboratórios recusaram-se a analisar a amostra de sangue do cordão umbilical da Miranda. Ficámos sem saber qual o seu tipo de sangue e eu tomei a Anti-D por precaução.
O parto não foi complicado, não houve situações de stresse, foi calmo e lindo. Foi tudo muito simples, apesar de ter de tomar a vacina anti-D. Não havia estranhos nas paragens. Estávamos entregues a nós. Senti-me forte e segura. Durante as primeiras semanas após o parto, senti que flutuava nas nuvens.

























































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